terça-feira

Sobre Estima

Diz-me: não tens medo que o tempo possa um dia rir na tua cara a evidência óbvia de ser maior e mais forte do que tu? É que eu tenho e não o subestimo. Por isso lhe dou brado todos os dias. Para que não me prove o que todos nascem a saber sem que ao menos lhe dê luta. Para, pelo menos, o obrigar a sentar-se cansado e arquejante, não sei se em reverência, se em esgar de puro alívio, no dia em que me fôr. Para, pelo menos, o obrigar à pausa que me há-de ficar por única homilía. Essa pausa, esse hiato, esse intervalo. Esse fulgás e suspenso ponto em que abranda e se senta, a recuperar o fôlego que lhe gastei. Até ver chegado, enfim, o derradeiro instante de me vergar e vencer. Como sempre esteve escrito que haveria de ser.

Inconformismo

Estava aqui a pensar... tu não és poeta, nem da poesia. E também não és do fado, não és fadista. É, portanto, sem perdão que prefiras morrer de saudade a morrer de amor.

segunda-feira

Gare

É verdade não vou, como nunca havia ido buscar ninguém. A única vez que me deu para submeter a verdade absoluta da minha teoria da intuição ao contraditório, a que a ciência chama princípio da submissão à regra da sua própria falsificabilidade, concluí que a minha verdade resistia e a teoria provava sustentar-se mais sólida e inabalável do que nunca. Concluí, então, que era porque eu devia estar certa. Não se deve ir buscar ninguém. Por muito que custe e doa. Não se deve. É que no momento de ir em busca, quem marca a hora é o relógio da nossa inquietude, falta, saudade, desespero, ansiedade, eu sei lá. Pouco importa. A única coisa que interessa é que não é pelos nossos ponteiros que deve reger-se a contagem. Porque dificilmente eles se acertam com o tempo exacto de alguém se deixar ser buscado. Erramos quase sempre o timing. Ou já vamos atrasados, ou chegamos adiantados. E acontece que as pessoas, como os corações que lhes batem lá dentro, são incertos e imprevisíveis como os horários dos combóios. Ninguém consegue acertar exactamente a que distância e a quanto tempo estão da gare.
Vem isto a propósito de, por uma vez na vida, me ter ocorrido ir buscar alguém e esse alguém teres sido tu, que fizeste que andavas ansiando por vir, que juravas que vinhas e que tinhas vindo, e que, no fim, não houve meio de vires: nunca vieste.
E se volto ao assunto agora, é só para te dizer que por mais que deseje ir buscar-te e tu que eu te busque, bem podes esperar sentada junto comigo porque eu não irei. E não é por soberba, orgulho ou arrogância, como sei que me acusas, mais que não seja em pensamento. É pelo meu horror ao erro e às coisas vãs. É pela minha absoluta descrença nos actos inúteis e nos mvimntos estéreis. Não se busca o que não está a ponto de se deixar ser buscado. Isso já eu sei, já eu sabia, como tu muito bem trataste de me provar. Portanto, Meu Bem, se acaso ainda almejas o encontro, trata de buscar-me e me fazer saber, incondicional e indubitavelmente, que vale a pena te buscar porque te achas, enfim, a ponto de consentir ser buscada.
Fui clara, agora?!

Ana Carolina | aqui



Aqui
Eu nunca disse que iria ser
A pessoa certa pra você
Mas sou eu quem te adora

Se fico um tempo sem te procurar
É pra saudade nos aproximar
E eu já não vejo a hora

Eu não consigo esconder
Certo ou errado, eu quero ter você
Ei, você sabe que eu não sei jogar
Não é meu dom representar

Não dá pra disfarçar
Eu tento aparentar frieza mas não dá
É como uma represa pronta pra jorrar
Querendo iluminar
A estrada, a casa, o quarto onde você está

Não dá pra ocultar
Algo preso quer sair do meu olhar
Atravessar montanhas e te alcançar
Tocar o seu olhar
Te fazer me enxergar e se enxergar em mim

Aqui
Agora que você parece não ligar
Que já não pensa e já não quer pensar
Dizendo que não sente nada

Estou lembrando menos de você
Falta pouco pra me convencer
Que sou a pessoa errada

Eu não consigo esconder
Certo ou errado, eu quero ter você
Ei, você sabe que eu não sei jogar
Não é meu dom representar

Não dá pra disfarçar
Eu tento aparentar frieza mas não dá
É como uma represa pronta pra jorrar
Querendo iluminar
A estrada, a casa, o quarto onde você está

Não dá pra ocultar
Algo preso quer sair do meu olhar
Atravessar montanhas e te alcançar
Tocar o seu olhar
Te fazer me enxergar e se enxergar em mim
Em mim... Aqui


Deixa-me chorar. Só chorar e pronto. sem muito mais, que mais não resta e já não há. Mesmo que seja pop. Mesmo que seja um hit canastrão, popularuncho, já meio gasto e por demais abusado. Só porque me toca um nervo menos ácido, mais na mouche, qualquer coisa ao centro do que tão bem eu sinto e sei. Só porque, mesmo sem ser nada de especial, me entra, toca e fere na nudez do desconcerto. Sem eu querer, sem merecer. Estupidamente. Quase ridícula. Embaraçosa. A canção de rima grossa e sem grande prumo afinado ao escopro. Mas é que 'aqui' era tão nosso!... Tão só nosso que às vezes ainda acho que ainda é e dou comigo aflita, nesta coisa vã, de achar que sempre será. E é por tanto achar, que me dói e solta o que quer que seja que choro agora. Assim. 'Aqui'. Num desconsolo amachucado de inconformado se conformar. Desfeito. Estilhaçado. Atordoado. Sempre. Mesmo ao final de todos estes incomensuráveis séculos volvidos e rasurados à história certa, à história errada, eu não sei. Já não sei. Acho, aliás, que pagaria para nunca chegar a saber. Entendes-me?! Consegues entender-me?!... Não, pois não? Eu sabia que sim. Portanto, deixa-me chorar. Só chorar e pronto. Que quando os olhos arderem demasiado, eu limpo a dor do pranto. Desligo a chave do motor, o rádio cala-se, eu saio enfim do carro e entro enfim em casa. Como se não fosse nada. Como se nada tenha sido. E sigo a vida que restou por diante. Como é preciso e bom que seja. Para não morrer antes da hora. Nem sem ti, para ao menos me chorar.

sexta-feira

Açaime

Eu sei porque não mais me chamas. Umas vezes esqueço-me que sei, outras – como agora – volto a lembrar-me que sempre soube. É porque sabes que, se chamares, te vou buscar com a boca e tu sabes que, entretanto, te caiu a pele e já não há por onde te possa morder.

L' infernal

Vivo fora do tempo e gosto. Sem par, sem matriz, sem esquadro, referente ou absissa, mas não me faz falta. Vivo algures, aquém ou depois do mundo, mas não me apoquenta. Não preciso de lugar porque já ocupo espaço. Todas essas angústias e aflições, nem sequer as veria, se não fossem vós e essa vossa mania de espalhar espelhos na vertical, superfícies demasiado magras e esguias que me comprimem a pele e escapam dos ossos, e me fazem surgir assim: devolvida nas distorções à minha forma.

Sobras-me

Têm que ser sós os que têm coisas a fazer. Primeiro porque não se podem distrair, depois porque não se sabem dividir. Não exactamente por esta ordem de razões, embora venha a dar no mesmo. Aquilo que gostei e precisei de ti é a justa medida do que me pesarias hoje. É por isso que, nos tempos que correm, não me resta alternativa se não largar-te no chão onde ficaste e continuar a passar por ti sem te pegar. Nunca saberia tomar-te como um farto.

Falsos Sobressaltos

A vida teima em nos pregar partidas. Mas não faz mal porque tu não dás por elas.

quinta-feira

Inconfidências

Perguntas-me «Que onda te embala?». E fico eu sem saber se hei-de adentrar a maré e consentir que a corrente enfim me leve. Não sei que queres que te responda, ou se hei-de eu responder-te ainda assim. Seja como for, é possível que te tenha respondido com a verdade, que te tenha dito mais ou menos assim: embala-me um certo abraço. Que há abraços que são como as ondas. Embalam-nos como elas.

sexta-feira

Otto | dedo de deus

Dedo de Deus tocou em mim
A Fé e a Beleza dessa Mulher
Tocou em mim

A luz que ilumina a floresta
Conduz a u'a tribo em festa
Reluz a bela união
Oh minha vontade
Tu transmutação

A luz que ilumina a floresta
Conduz a u'a tribo em festa
Reluz a nossa união
Oh minha vontade,
Tu transmutação