domingo

Estendo-te um estômago estreito

Foto: Robert Heinecken


É estreito o meu estômago e tu devias percebê-lo a cada vez que, à tua frente, me espojo e espreguiço. Tem um elástico que o dilata até à boca do umbigo, o meu estômago, e depois disso fecha-se num osso duro, que nenhuma mão humana voltará alguma vez a partir. Devias saber (sim!), tu que me tacteias pelo avesso, mesmo que a natureza to não peça em chamas, como faz em outros dedos, outras mãos, outros avanços. Portanto, pergunta-te primeiro se acaso me pedes o que queres, ou se queres querer aquilo que me vens pedir. Porque não podem sobrar fissuras à fibra que lenta e longa se alisou, até voltar a deixar-me a barriga assim: mansa e dura, depois de tanto aço engolido à traição, nua e sem quebras, estendida e cavada, pele visível por cima de um estômago que é estreito. Demasiado estreito para aceitar o que lhe cabe para lá da justa medida, como (aliás) tu muito bem deves saber ou já ter começado a suspeitar.


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