segunda-feira

Gare

É verdade não vou, como nunca havia ido buscar ninguém. A única vez que me deu para submeter a verdade absoluta da minha teoria da intuição ao contraditório, a que a ciência chama princípio da submissão à regra da sua própria falsificabilidade, concluí que a minha verdade resistia e a teoria provava sustentar-se mais sólida e inabalável do que nunca. Concluí, então, que era porque eu devia estar certa. Não se deve ir buscar ninguém. Por muito que custe e doa. Não se deve. É que no momento de ir em busca, quem marca a hora é o relógio da nossa inquietude, falta, saudade, desespero, ansiedade, eu sei lá. Pouco importa. A única coisa que interessa é que não é pelos nossos ponteiros que deve reger-se a contagem. Porque dificilmente eles se acertam com o tempo exacto de alguém se deixar ser buscado. Erramos quase sempre o timing. Ou já vamos atrasados, ou chegamos adiantados. E acontece que as pessoas, como os corações que lhes batem lá dentro, são incertos e imprevisíveis como os horários dos combóios. Ninguém consegue acertar exactamente a que distância e a quanto tempo estão da gare.
Vem isto a propósito de, por uma vez na vida, me ter ocorrido ir buscar alguém e esse alguém teres sido tu, que fizeste que andavas ansiando por vir, que juravas que vinhas e que tinhas vindo, e que, no fim, não houve meio de vires: nunca vieste.
E se volto ao assunto agora, é só para te dizer que por mais que deseje ir buscar-te e tu que eu te busque, bem podes esperar sentada junto comigo porque eu não irei. E não é por soberba, orgulho ou arrogância, como sei que me acusas, mais que não seja em pensamento. É pelo meu horror ao erro e às coisas vãs. É pela minha absoluta descrença nos actos inúteis e nos mvimntos estéreis. Não se busca o que não está a ponto de se deixar ser buscado. Isso já eu sei, já eu sabia, como tu muito bem trataste de me provar. Portanto, Meu Bem, se acaso ainda almejas o encontro, trata de buscar-me e me fazer saber, incondicional e indubitavelmente, que vale a pena te buscar porque te achas, enfim, a ponto de consentir ser buscada.
Fui clara, agora?!

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